Calçada à portuguesa

No dia em que fez 100 anos, Oscar Niemeyer acabou de ler pela centésima vez o romance “Os Maias”. Depois de pousar cuidadosamente o livro sobre a maquete do novo aeroporto de Lisboa, desceu do seu ateliê na cobertura do prédio da Avenida Atlântico, no Rio. Ao mesmo tempo, na aula de Filosofia do escritório do décimo andar, a rapaziada discutia sobre literatura portátil. Quando entrou no local Oscar ouviu, do alto da sua sabedoria, uma das aspirantes a arquitecta perguntar à amiga se conhecia Eça de Queiroz, o embaixador da língua de Camões na pátria de Shakespeare. Que não, a outra mocinha só conhecia a Raquel de Queiroz. Talvez esse gajo fosse irmão dela, não? O arquitecto sentiu um calafrio em todos os pilares do corpo, e um peso de muitas letras sobre os ombros. E disse, lacónico, pós-moderno e avesso a estatísticas do Eurostat: ‘Você, garota ignorante, não pode trabalhar mais aqui. Vá polir calçada!’.

Helder F. Raimundo
Gustavo do CarmoInês Sousa Santos