Por uma questão de princípio nunca antecipava o final de qualquer história que escrevesse. Prezava tanto a cronologia dos eventos que nunca terminou uma relação sem antes a ter começado. Tinha horror aos vaticínios porque preludiavam uma previsão final a algo que, as mais das vezes, nem sequer ainda se tinha iniciado. Familiares chegados garantem que jamais lavou as mãos antes de as sujar. Tribuno duro de roer, declarou – do princípio ao fim da carreira parlamentar, guerra sem quartel à frase “os fins justificam os meios”. Morreu de comoção cerebral, logo aos primeiros minutos do filme “O Estranho Caso de Benjamin Button”.
«Esta nossa ligação já não faz nenhum sentido.» adiantou-se ela, impaciente por colocar um ponto final em quarenta e cinco anos de casamento. Não menos ansioso, ele olhou-a aliviado «Tens razão. Tão distraídos temos andado que nem percebemos que esta história de amor tão linda e breve tinha de ter um fim.»
Assim que no ecran do cinema surgiu a legenda The End as pessoas levantaram-se dos seus lugares e saíram. Ele não. Morreu sentado.
Andei às voltas com um grande círculo nas mãos porque me pediram que lhe encontrasse o fim.
E eu perguntei ingenuamente se não seria mais simples encontrar-lhe o princípio, caminhar ao seu longo e logo dar com o fim.
Que sim, que era possível mas que o dilema seria o mesmo.
Naquele tempo não entendi porque na lógica do meu simples pensamento seria sempre melhor começar pelo princípio e assim chegar ao fim.
Mas essa lógica não cabe nos círculos e mesmo tendo encontrado o lugar onde o princípio e o fim se tocam, não soube distinguir qual deles era o princípio e qual deles era o fim.
Ando às voltas com um enorme círculo nas mãos onde me sinto livre para escolher o lugar do fim.
A meio da vida banhei-me nas águas de um flume escuro pelas mãos de Efialtes, aquele que me conduziria a outra morada. Antes tivesse Virgílio para me guiar até à luz. Assim, um destino parece marcado pela traição de mim mesmo. O alter-ego tomou conta deste meu ser.
“Desde Dante ninguém ousou esta entrada mas por vossos conflitos serei eu a levar-vos pelo país das nove planícies e ireis conhecer o Senhor da Meia-Noite”.
Tomamos as jornadas como certas seguindo a pista da aranha e o voo da coruja.
“Olimpo! minha casa perdida estarei de novo nos teus braços? Terei alegrias e a infância de outrora?”
Vejo um sol negro no virar da curva e sinto o vento frio de um rio tumultuoso. Aves de asas geladas anunciam o norte polar do inferno.
“A estes domínios chegou vossa sombra nos mesmos passos de Dante. No fluir destas águas subireis a corrente e sereis limpo de vossos crimes. Sereis, então, levado às portas de Jano”.
Imaginei um fim diverso daquele anunciado. Pronunciei as orações fixando o olhar no magnífico rio das almas e mergulharei as mãos purificando-me assim da cólera e castigo dos deuses.
Ouviu animada a cigana decifrar a história desenhada em suas mãos. Mas morreu bem antes do final da Linha da Vida. A cigana não tinha visto o atalho.
THE ENDO tônus muscular do paciente apresenta-se flácido. O coração, debilitado pelo esforço contínuo em seu trabalho, dá mostras de estar pifando, como registra a tela acima de seu leito na UTI. Os olhos, opacos, já não refletem a vivacidade de outros tempos. E sua principal arma de defesa, a cera firme e consistente que saía de suas mãos, agora não passa de uma gosma rala.
A enfermeira verifica o prontuário e custa a acreditar que o Homem-Aranha já passa dos noventa anos.
Mais uma vez ela desembestou ladeira abaixo quando ouviu o apito do trem postal. Mais uma vez não veio a carta prometida e esperada há tantos anos. Na estação já sabiam por que ela estava ali e torciam para que recebesse logo a carta. Quando recebeu, estava assinada pelo jovem ajudante do chefe da estação, que se apaixonara por aquela menina pronta para o amor. Não foi correspondido. Ela continuou esperando a carta do outro, que nunca escreveu e já nem se lembrava que ela existia.
Quando ela me deixou, conheci o desespero. Quase morto, vivia preso apenas à esperança de seu retorno. Racional e dedicado às idéias, através dela descobrira meu corpo em sensações nunca experimentadas. Certo de que ninguém poderia despertar-me igual prazer, tornei-me insistente e enfadonho, afastando-a ainda mais. Passado algum tempo, por carência momentânea ou para testar seu poder sobre mim – ela conhecia e gostava deste jogo – chamou-me à sua casa. Antevendo o gozo da paixão fui às pressas, mal disfarçando a excitação. Algumas horas perdidas em seu corpo morno e meu ser inteiro estava frio e quase enojado. Naquela noite, o fim encontrou-se em nós no mesmo espaço e tempo. Senti-me livre e novamente vivo!
TimidezMinguante, quase nova, ela sabia lidar melhor com os finais do que com os começos. Sempre que era sua época de cheia, se desejava eclipse. Escondida atrás da mãe esperava o momento passar e minguava feliz!
Início e Fim na MGMEm criança esperava ansiosamente pelo rugido do Leão que abria os filmes da Metro. Saía triste, pois sempre esperou que, no final, seu herói se despedisse dela com outro bocão. De fato, nem se importava com o filme, gostava mesmo era daquele poderoso gatinho.
Ouviu o som muito baixo da sua respiração e os órgãos a funcionar. Fechou os olhos, tentando adormecer definitivamente. Não conseguiu. Olhou para o chão e fitou o tecto. Iria para cima ou para baixo? Sentiu que as palavras estavam a ficar fora do lugar, por breves instantes ouviu a música de uma trombeta. Relacionou tudo, sons, imagens, palavras, coisas, pessoas, atmosferas, ideias, sentimentos, vestígios, miragens. Uma volta na cama pô-lo cara a cara com sorrisos e formas há muito desaparecidos, que lhe fizeram acenos subtis e trocaram olhares cúmplices. Deu uma ordem ao corpo, mas ele não obedeceu. Procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Teve uma fúria lenta. Deu um salto e sentiu-se uma bola de sabão a elevar-se no ar. Apercebeu-se que estava a atravessar um espelho, porque viu a mão a cruzar o espelho. Reconheceu-se como alma. A partir daquele momento iria ser um viajante na noite, em busca de um alvorecer clarificador.
Não sei se é, não faço ideia, nunca o pensei, não quero saber. Estive entretida a viver fora de mim e dessas coisas todas que nos puseram na cabeça em pequeninos. Deste e do outro, assim e assado, por isto e aquilo, por tudo e por nada, por ninguém. Esqueci, mudei, fugi, nem sei. E lá longe (tão longe!), bem no coração do mundo, numa aurora austral que ligava a terra aos céus, creio que gritei p’la primeira vez ao ser parida. Senti o eco sob os pés sujos da terra, e os pássaros voaram num repente belo, e a gazela paralizou o passo até chegar o riso das crianças correndo na planície rumo a donde vinha o cheiro a pão de mandioca. Se tu soubesses!... A savana enfeitiça-nos de vida p’ra todo o sempre até à morte. Só pode ser branca, a magia, qu’a outra é castigo que mata devagar. Não sei de nada. Nunca soube nada. Mas podes achar que acabou, se quiseres. Sim, deve ter sido o fim. Só eu não sei dizê-lo, que ainda agora nasci, e as palavras são tão inocentes e o horizonte tão longo, tão largo, tão tanto, qu’até o fim é nada.
Ficou só nas reticências..... Nunca chegou ao ponto final.
CondimentoAquela relação os remetia a filmes eróticos hollywoodianos. O sexo era picante, caliente mesmo. Mas o enredo... Permanecia um claro enigma.
O condenadoAo longo de toda a sua fracassada vida tentou parodiar Cesar ( Caius Julius Cesar- 47 A.C –“Veni, Vidi, Vici” ).
Como sempre, chegou atrasado; perdeu.
O e da primeira sílaba soa fechado, e também aquele da penúltima sílaba; tudo por imposição do idioma. E a consciência humana, finalmente conseguirá se livrar dessa sina?
Dos objetivosOs meios que precederam o fim, por fim lhe afloraram os tormentos.
Do lado de fora, do lado da praia, do lado esquerdo de quem olha para o horizonte em ferida, desse lado, dessa parte estreita, dessa escondida saliência entre o barulho dos veraneantes e o silêncio dos Cordeirinhos-da-Praia, vi-te.
A tua lábil figura, o teu passo irregular, os teus cabelos ensaiados, um rosto sem esgares, braços sem vida, pernas sem ritmo. Vi-te, sim! Vi-me.
Para lá da falésia, vencendo o precipício, para lá da linha indefinida que era o teu corpo, mais para Oeste, do lado da sombra que se escondia atrás das pedras recortadas, a meio caminho do abismo, para lá do divórcio elementar entre a terra e o oceano, desse ódio partilhado, dessa fronteira em sinfonia, sim, sim, muito para lá da observação vertical, da atalaia resistente, da curva defensiva, oh, para lá de mim, do meu grito e do meu canto, para lá do vento rasante, bem para lá, demasiado lá, e longe, mais longe do que eu podia, sim, sim, sim, vi-te e vi-me e viraste-te e sorrimos e separaste-nos.
– Ó senhor Edvard, nesse dia, quando passeava nas dunas, viu ou não viu uma rapariga cair ao mar?
– Rapariga? Não vi nenhuma rapariga.
– Acabou.
A voz murmura dentro dos seus pensamentos, como um sussurro constante, uma voz arrancada aos confins da eternidade, como um tormento infinitamente perpetuado. Sabe que tudo acabou, que a sua existência está já condenada e que os seus sonhos, a sua liberdade, surgem agora prostrados ante os pés da hecatombe.
Não tem mais nada a perder. Quase consegue sentir a sua vida a fugir-lhe por entre os dedos, como o sangue que se esvai do corpo tombado diante dos seus olhos, um último movimento perdido nos abismos da morte. E ele sabe que já nada tem sentido. Já nada tem razões de ser, agora que ela morreu.
Sorri levemente, como se tentando afastar os seus demónios. Depois, volta costas ao corpo e segue em direcção à porta. Quando o encontrarem, lá fora, sob a marca do assassino, será já tarde demais.
O homem percorria avidamente o longo e estreito corredor à procura do fim, da saída. Já há muito tempo que andava perdido naqueles intermináveis corredores, emaranhados numa rede com derivações e ramificações múltiplas. Pensando bem, nem se lembrava de alguma vez ter estado fora dali. Mas isso incentivava-o ainda mais na sua busca. E o homem continuava a caminhada.
Muito tempo mais passou até que um dia chegou a uma porta que atravessava o corredor bloqueando por completo a passagem. Parou e observou a porta com atenção: tinha um simples manípulo, de aspecto já consideravelmente gasto. “A saída, descobri finalmente a saída.”
Durante toda a sua vida imaginara como seria do lado de fora dos corredores, agora chegara o momento de descobrir. Abriu a porta lentamente, num misto de expectativa e receio, até ter a certeza do que via. Para lá da porta estendia-se um longo e estreito corredor.
O homem atravessou a porta e começou a percorrer o novo corredor, olhos postos em direcção ao fundo do corredor, à espera de descobrir o fim, a saída.
Agora que está morto, Li Sung espanta-se por continuar a sentir tudo o que ocorre ao seu corpo. A dor excruciante do fluido de embalsamamento injectado nas artérias convence-o de não estar simplesmente preso num desses pesadelos matinais em que não se consegue mexer um músculo. Está mesmo morto e sente mesmo tudo.
Durante a sua miserável existência, Sung foi capitão num campo de prisioneiros que não vem nos mapas da Coreia do Norte. Certa noite igual a muitas, levou uma mulher pelos cabelos até uma sala de interrogatórios, onde trabalhou com entusiasmo madrugada afora. Já quase sem vida, porém, esta mulher em particular dirigiu-se-lhe num sussurro tão tranquilo que lhe secou a boca. “Fazes ideia de que vais ter que compreender tudo, minuto por minuto?”
Sung esforça-se agora por deitar contas à agonia que infligiu ao longo dos anos e calcular quanto desse balanço faltará saldar. Mas a sua memória já não é o que era, sobretudo quando o cérebro se converte devagar numa massa putrefacta. Talvez que, quando sobrarem apenas ossos, o suplício acabe. Com memória ou sem ela, uma coisa é certa: até lá, muita coisa irá passar-se ainda, minuto por minuto.
Pai, perdoai-os...Eles não sabem o que fazem.
Mutatis MutantisEm frente ao espelho ela se quebrou. Os cacos enrolados no jornal, não foram velados.
Amor LevianoPela manhã sobre a cadeira, a calcinha, a cueca e o cheque.
Templos ModernosNa quinta-feira, não pode ser apóstolo. Tinha frieiras.
Final FelizQuando finalmente sua cobra comeu a maçã, eles descobriram o paraíso.
Falência Múltipla dos ÓrgãosDiagnosticou o doutor do asilo após o show de strip tease.
AbismoO ermo é um desvario.
Fecha os olhos mas a alma não responde, só a dor o amplexa.
O fim da madrugada limpa a maquiagem do corpo e da alma.
Fundo do poçoQuando jogaram o balde, acertaram-lhe a cabeça.
Final FelizQuando finalmente sua cobra comeu a maçã, eles descobriram o paraíso.
Se em cada organelo há consciência de fim não faço ideia alguma. Mas certamente que atravessa em cada célula dos nossos corpos o desejo de eliminar desgostos, terminar tristezas, por fim às dores.
No café esperou for horas a fio, queria dar-lhe as cartas que havia escrito durante meses, cartas onde contava sobre o seu país imaginário, refúgio das palavras ditas em sons tortos, albergue de amores rejeitados, colo das cantigas mais doces e aflitas, abraços de fortes quereres.
Só queria sentir as palavras ditas em comunhão, apenas queria por fim à espera.
Só então ele se deu conta da gravidade dos fatos. Será mesmo? De certo a complexidade do contexto em que se encontrava ainda não estava bem dimensionada. Mas era grave seu espírito, e ele sabia disso.
Sete meses, ele contara nos dedos em ordem crescente. Tempo em que foi recuando a cada hora arrastada por seus fatídicos minutos desprovidos de altivez. Sim, porque não havia nada de nobre em tanta renúncia.
Abrupto e aflito, ele deixou de lado todo o lirismo. Despercebido, desencontrou-se aos poucos do lúdico. Involuntário, passou a olhar os fatos de sua vida através de um prisma composto de ignorância e descrença.
Naquela noite desaguou forte chuva. Ela, sim, altiva. E grave, assim como ele que, só então, se deu conta da gravidade de seu espírito e da complexidade da situação em que se encontrava: ele não sabia onde, nem como, se encontrava.
De certo, em seu íntimo, ele sabia que toda aquela situação que vivenciava já há sete meses era o fim, não o meio. E era justamente este caráter fatídico a razão de tanta dor que, ele sabia, jamais teria fim. E não teve.
Pelo acervo que temos, pode-se argumentar ser um fim em si mesmo o fato de se querer ir mais além daquilo que fatores externos põem entre o feito e o imaginado, e ao que atores internos instintivamente temem. Pretendem mostrar isto a Psicanálise, a Filosofia, a Gnose.
Melhor não esquecer os contrastes, sem os quais não se vai a lugar algum, nada se concebe nem se consegue sem aspectos conflitantes, porque o segredo a respeito do estigma de se viver apenas entre luz e sombra, frio e calor, é saber lidar com eles, medindo-se à própria e exata significância ou insignificância, e então abordá-los e tirar-lhes o melhor proveito. Die Gedanken sind frei / os pensamentos são livres. Lembra, corpo.
Portanto, nada de ficar com cara de fiança à fome, à sede e à insônia, a boca escancarada esperando a sorte chegar. Sobreviverão a mim os ossos e destrossos da inenarrável algazarra da morte. Há fim e final. Sobreviverá a mim o gomo da minha essência sobreviverá ao que ele é e ao que falseia ser (eis o legítimo “instinto de sobrevivência”).
Ele corre escada abaixo, escancara a porta da rua, corre invadindo a noite e só se depara com o breu da madrugada gelada, úmida e deserta. Para o nada diz em um fiapo de voz rouca:
– Alice?!
Tarde demais.
Abaixa a cabeça e lembra as últimas palavras dela.
– Me faz uma xícara de chá?
Que ingênuo. Sorri de canto de maneira débil e infantil, ainda vivificando os erros que cometeu.
Ele virara as costas culpadas e curvadas rumo a cozinha pegando os apetrechos para atendê-la. Em silêncio típico de vítima ela partira sem se despedir.
Seria melhor assim. Sem adeus, sem lágrimas, sem confronto, sem o fim concreto.
Deixaria atrás de si somente um rastro de incertezas, dúvidas e amargura.
Para ele, ela se tornaria a névoa doce de uma noite tipicamente londrina.
Em silêncio
De Beckett
Cabeça baixa
Horizonte de umbral
Laranjento
Na beira da estrada
No meio do nada
Árida espera
No teatro dos absurdos
Aguarda Godot
Ele não viria hoje
Disse o menino espoleta
Talvez amanhã
Este é só o fim
Do primeiro ato
Percorro em equilíbrio o odor acre dos binários metálicos em dias de chuva mesquinha.
Acordo sonâmbulo para a manhã impura e nesta insónia compulsiva o teu beijo soletra homicídio.
E o rumor dos corpos inaugura mais um ansiolítico possível ao descalabro emocional.
Seco.
Sem desculpa para palavras que ferem a escrita de vulgaridades mundanas.
Sem artifícios nem figuras de estilo.
Deixaste de doer-me e ser pena e tinta e livro.
Deixaste de doer-me e por isso não consigo escrever-te.
E no texto vazio que se tornou o campo de onomatopeias que plantei para ti ressoa um rasgar de páginas.
Definitivo como carne.
Ao se conhecerem, adorava o ar intelectual que ele carregava, seu jeito reflexivo.
Depois de dois anos casados, fica com medo toda vez que o vê olhando para o horizonte, talvez perdido em pensamentos que não tenham nada a ver com ela, o filho recém-nascido ou o cotidiano da casa.
Prometeu amá-la para sempre e jurou por Deus que sempre estaria ao seu lado.
Na hora de assinar os papéis do divórcio, agradeceu ao Senhor a invenção do livre arbítrio.
Houve um tempo em que havia muito tempo. Hoje, os minutos contam-se entre si, brigando para não virar horas.
VivênciaDeu tanto o seu corpo na juventude que no final da vida não lhe restava nem a lembrança dele.
EconomiaDia 1º. Pagamento do salário. Relação das contas. Pagamentos. Outras dívidas. Falta de dinheiro. Atraso no pagamento. Crédito bloqueado. Juros. Cobradores na porta. E o fim deste mês que nunca chega.
Instalou câmeras em vários pontos da mansão. Pagava fortunas para que os funcionários monitorassem-no vinte e quatro horas por dia. Quando as máquinas foram desinstaladas, a chama que havia dentro dele se extinguiu e seu corpo imóvel repousa na cama.
Mergulhou na piscina azul e não viu mais a luz.
Continua a revelar seus segredos, tudo em volta se deteriora; quero pedir a ela que se cale, mas não consigo; apodreço junto com o meu mundo. Sem olhar para trás, a jovem vai embora. Flutua ao horizonte florido.
Sentiu nada quando ela lhe abraçou.
Sente um tédio gostoso. O crepúsculo chega e seus olhos não vêem.
Um deixa de sonhar e o outro encontrará o mundo utópico.
Depois de dizer tudo que sentia, saiu da sala de jantar. Todos à mesa ficaram atônitos. Alguém se retira e vai ao seu encontro: – Me leva com você. Quero ir embora desta casa maldita, quero viver; te amo!
O carro atravessa a estrada iluminada pela lua cheia, ao lado, o mar aparentava tranquilidade.
A luz encobre-lhe os braços cruzados sobre o ventre. O sol enterra-se-lhe nas veias com a velocidade de um punhal à procura de uma vingança na melancolia da tarde. Depois, a chuva vestindo a paisagem de branco. Há movimento a crescer-lhe nos gestos pela obsessiva chuva. Os seus olhos inertes, fixos à passagem dos outros, prendem um instante de esperança por entre assombrosas ruínas. A mulher admira o jardim sossegadamente enquanto ouve o rastejar de uma lembrança que as suas mãos seguram já com incerteza, inconsoláveis. Recosta-se no assento do banco. Há minutos atrás decidira ir ter com ele ao café onde se encontravam habitualmente. Acabar tudo. Repetir-lhe palavras até estas soarem banais. Tenho medo do que vais apagando entre tu e eu, da ausência de onde emerge o retrato imóvel da solidão, balbucia numa voz inaudível como se o medo a impedisse de amá-lo na mecânica da palavra.
Silêncio.
Sandra sorri contemplando a frondosa árvore diante dela que o vento sacode. Não mais existes, murmura na permanência do sorriso reconquistado. Não mais sobrevivo para nos aniquilar no mais penível silêncio. Porque estamos todos cegos. Meu amor. E eu sou uma mulher sem medo, gravemente ferida.
Por tempos e tempos ficou dando errado demais, até que, finalmente, deu certo; e, mesmo assim, mesmo após dar certo, ainda continuou dando errado por muito e muito mais tempo. Dando errado até cansar. Só quando finalmente ia dar errado de vez é que, no desespero, no susto, na iminência da perda terminante, demos, eu e ela, um jeito de fazer dar certo de verdade, definitivamente — até porque, se uma pitada de complicação é o tempero que muitas vezes falta a uma relação, duas pitadas já é o tanto suficiente para desandar o lento cozinhar das coisas que se quer duradouras.
Portanto, só quando ia, por fim, dar errado de vez é que, no desespero, no susto, na iminência da pungente perda terminante, demos, eu e ela, um jeito de fazer dar certo de verdade. E ela, finalmente, passou a, então, dar como nunca. Como nunca. De repente, quando vimos, tudo era só amor. Indefectível amor (Saudosa época). Contudo, em menos de um instante (épocas que se esgotam em menos de instantes nessa minha relativa vida), também percebemos que, infelizmente, a partir de então, o mesmo tudo já passava a não ter mais a menor graça.
Joaquim Sevício decidiu pôr termo à vida atirando-se da janela de sua casa. Como morava no rés-do-chão teve de saltar saltar onze vezes até conseguir despedaçar-se no asfalto.

Manuela Pirandelo tentou afogar-se na banheira, mas esqueceu-se de a encher. Só após muito esforço atingiu o objectivo.

Josefino Baldroega atirou-se à linha férrea em dia de greve dos maquinistas e, por mais que tentasse, não conseguiu ser trucidado. Voltou a casa jurando que não mais deixaria de andar informado.

Antonino Rominero escolheu o tabaco como método suicida. Morreu 58 anos depois, atropelado por um táxi desgovernado, enquanto comprava um maço no quiosque da esquina.

Teolinda Almojo decidiu esperar pelo fim-do-mundo, mas não teve sorte. Morreu muito antes.
O condenado acreditava que renasceria das cinzas do último cigarro do último pedido feito ante o pelotão de fuzilamento. Enquanto fumava, divertia-se com a inquietação do comandante do pelotão que marchava de um lado para outro, mãos para trás, suando em profusão. E alongava seus últimos minutos fumando sem nenhuma pressa.
– Não se afobe Coronel. Eu podia ter pedido um charuto – pilheriou soltando uma baforada.
O outro não riu. Apenas ia e voltava.
Consumiu-se o cigarro. Resoluto o oficial sacou do sabre e ordenou:
– Preeeeeeeeparar!!
Seus comandados juntaram os calcanhares e levaram aos ombros as armas.
– Apoooontar!!
Apontaram.
Quando o enchia outra vez os pulmões para ordenar que atirassem ouviu atrás de si um tropel dos cavalos e uma ordem:
– Cancele a execução, Coronel!
Voltou-se. Fez-lhe sombra a figura de um general estropiado com um braço na tipóia. Confuso, sua imediata reação foi perfilar– se e prestar continência.
– É o fim, Coronel – disse o comandante, a voz embargada. – Resta-nos a rendição. Empreste-me sua espada para que... – parecia pedir desculpas – Pois perdi a minha.
– Sim, senhor!
Triste e diligentemente o Coronel embainhou a espada, desafivelou o cinto e entregou o conjunto ao seu superior.
O problema de Gilles com a memória é que ele se lembrava de tudo. Tudo mesmo. Uma dia tentou se lembrar de antes da própria gestação, que dizia ter sido aterrorizante por sentir os órgãos e membros se desenvolvendo.
– Essa não! – Lembrou, repentinamente, da vida anterior. Nela, ele também se lembrava de tudo. E já tinha tentado se lembrar da vida anterior a aquela. Cascatas de memórias antigas jorraram, ele sempre tentando se lembrar da vida anterior. Era atordoante.
Sentiu-se mal. Foi mais difícil que aprender a conviver com os próprios sentidos depois de instalados no corpo recém formado. E ele já tinha com o que se preocupar. O problema de Gilles era com a memória. Ele se lembrava de tudo.
Renascemos na dor; crescemos no vazio de vermos no espelho a nossa imagem baça; apanhamos pedaços dum corpo que desconhecemos; tentamos construir o puzzle para o qual falta sempre alguma peça. Bebemos as lágrimas para não secarmos. Hoje, como em crianças, desejávamos voar embalados no vento que sopra para sul e por isso abrimos os braços para o vazio, sentimos o ar que nos embala, as folhas, os ramos, o musgo mas... tudo não passa de um sonho: os pés decalcam a areia num peso maior que o pensamento; os olhos cegos pela luz procuram a solidão escura dum coração destroçado. Queimas notas, cartas, papeis rasurados; queimas móveis e roupas; queimas a casa que ainda tem o cheiro do teu corpo. Queimas tudo e ficas prostrada, quieta, pensando: será que este fogo milenar vai acalmar o vazio da minha alma.
O amor platônico de Erisvaldo por Joseane Carmeiros terminou quando ele descobriu que a sua jornalista preferida estava grávida de um empresário vinte anos mais velho do que ela. O carioca apaixonado estava quase se conformando quando recebeu o golpe final: Joseane estava se transferindo para São Paulo. Na cabeça de Erisvaldo, trocar o Rio por São Paulo era o fim.
Olhou seu rosto sorridente no espelho do restaurante, pensando na correspondência que recebera. O assunto era: “O fim vem!” Decididamente ele não queria pensar nisso. Sua mente voou para outros assuntos e repentinamente um vulto conhecido reflete ao lado de sua imagem no espelho. Sente uma dor aguda no peito. O rosto da mulher a quem ele conhecia tão bem se esgueira fugitivo. Ele curvou-se com as mãos ensanguentadas. Tudo girava e perdia cor. Se não era o fim da humanidade, tal qual anunciado no que lera pela manhã, era o dele. Caiu inerte, numa poça de sangue.
Olhando a foto da amada, com a cara mais triste desse mundo, ele apontava o revólver, com uma só bala, contra sua própria cabeça.
Cheio de ódio, começava sua roleta-russa.
Grunhia, trêmulo, cada vez que girava o tambor e apertava o gatilho:
– Ela volta...
– Ela não volta...
– Ela volta...
– Ela não volta
– Ela volta...
– Ela não volta...
Nisso, o disparo, se confundindo com fortes batidas na porta.
Ela havia voltado.
Gritava, contente, abraçada à porta:
– Antônio, Antônio, acabo de saber que estou grávida...
A sala estava escura, com as grossas cortinas corridas. Um silêncio impressionante parecia corresponder ao estado de espírito do escritor, sozinho na sala, de óculos grossos sobre um nariz delicado, juvenil. Lúcio escrevia avidamente, curvado sobre a secretária. Na mão esquerda, trabalhava a caneta. Na direita, um lenço, que limpava ora a testa, ora os olhos por trás das lentes. Trabalhava depressa, Lúcio. A sua mente presa noutro local. Esta sua atenção dividida, no entanto, era o motor da sua escrita. A razão de ser do seu invejável génio literário.
Na parede, subitamente, o relógio bateu as horas. Lúcio deu um salto na cadeira. Parecia atrasado para algo. Quase tropeçando nos próprios pés, pegou no casaco e correu para a porta. Dirigia-se para casa da amada, para o cortejo habitual, para a rejeição diária – que, como disse, era o motor da sua escrita. Na mesa ficava a folha onde escrevia, a sua obra contínua. O título «Curta definição de amor» encabeçava a página. De seguida o texto: «Não querer acordar do sonho Não querer acordar do sonho Não querer acordar do sonho».
O homem está sentado na plataforma à espera de um comboio. A luz violenta da manhã faz com que franza de repente a testa e feche os olhos. Reabre-os a custo e retoma o jornal que tinha baixado. Um comboio chega, pára, parte. Outro pouco depois. O homem continua sentado, mas não parece esperar já o próximo comboio; não se sabe o que espera. Tem uma mala de viagem junto à perna esquerda. Talvez tenha sucedido que, ao chegar à estação pronto para partir para qualquer sítio que não aquele — e deixar para trás os gestos e os trilhos repetidos dos dias —, se tenha apercebido de que todos os lugares serão sempre aqui; de que não há como fugir seja ao que for. Nessa circunstância estranha de promessa de fuga incumprida que o une à estação, deixa-se ficar a assistir veladamente às eternas partidas de e retornos a casa. Talvez tenha também uma casa à qual regressar, uma mulher ou um homem que ao final do dia, já alarmados com as horas, o esperem. Pouco importa. O homem está na plataforma e lê o jornal sob o sol forte da manhã — o resto é história.
Chove no fim de tarde cinzenta.
As pessoas esperam o autocarro
na paragem de Alvalade.
Chega um autocarro
com a indicação: «Hospital de Santa Maria».
E as pessoas, ainda tão pouco doentes,
entram pacatamente,
sentam-se, fixam o olhar abstracto,
deixam-se levar para o hospital.
Logo a seguir, outro autocarro
com a indicação: «Cemitério de Benfica».
E as pessoas, ainda tão vivas, embora já um pouco baças,
entram tranquilamente,
sentam-se, resignadas,
deixam-se levar para o cemitério.
Foi no fim de uma tarde cinzenta
que me levaram como os demais.
Esperávamos sentados numa sala
e folheávamos revistas gastas.
À chamada, saíam pobres almas
logo sumidas em restos mortais.
Ela ainda me concedeu um último
desejo, fosse oração ou cigarro.
Entre uma história e outra, cada
noite e a manhã seguinte, abro portas.
Paralisada num canto, a morte
aguarda, presa no fio das minhas
palavras como um prisioneiro
imóvel numa fila de autocarro.
O primeiro, que era um pessimista, disse: Isto é o princípio do fim!
O segundo, que era um optimista, respondeu: Não, é apenas o fim do princípio...
O terceiro, que tinha andado a ler um livro de estórias zen, concluiu: Seja lá o que for, vamos mas é jantar!
– As informações que recolhi, Grande Kha, indicam que o clima sofreu variações dramáticas nos últimos ciclos. As grandes quantidades de poeiras, fumos, e óxidos de carbono e de enxofre lançadas para a atmosfera, foram imperceptivelmente criando uma capa que, deixando penetrar muita radiação, constitui um obstáculo à sua libertação para o espaço. Isso provocou um aquecimento progressivo que favoreceu vagas de incêndios que devastaram as florestas das zonas equatoriais, fez derreter as calotes polares e aumentou exponencialmente a evaporação dos oceanos. Tanto vapor de água na atmosfera continua a deixar penetrar a radiação infra-vermelha, mas impede a luz solar visual de chegar ao solo. Sem luz solar, as plantas morreram e os que delas se alimentavam. O calor tornou a vida impossível à maior parte das espécies restantes, até às latitudes polares. Os organismos ficaram literalmente estufados. Neste mundo escuro e escaldante, medram fungos de todas as espécies, que dispõem de muita matéria orgânica em decomposição. Os indivíduos da antiga espécie dominante – os 50 milhões que restam – retiraram-se para junto dos pólos. Creio que estão criadas, enfim, as condições para a nossa instalação.
O motor surrupiava-lhe a paciência. No subir e descer dos passageiros, ele acionava o mecanismo da porta para que os apertasse de leve, sem ferimentos, quase os machucando; regozijava com as exclamações e xingamentos, arrancava o veículo como quem tira raiz da terra. Ao voltar para casa, na mesa de jantar, as mãos não paravam de tremer, continuavam na direção, a chave da ignição não o largava, ele apertava a mulher, sem ferimentos, quase a machucando; regozijava com os gritos ecoados pela vizinhança. Dava-lhe um tapa e ia dormir ouvindo o trânsito. No dia seguinte, o ônibus vazio o esperava, no ponto.
Era uma vez um velho avarento que morava num bairro afastado. Ele era pobre, mas sempre que bebia se gabava de ter conseguido juntar mil dinheiros mesmo ganhando apenas um salário mínimo por mês. Ele se gabava também de guardar o dinheiro em casa, porque não confiava em banqueiro nenhum. Ele era viúvo e tinha três filhos. Um deles estava desempregado e havia pedido dinheiro ao pai, que negou para que ele aprendesse a ser homem.
Certo dia, um rapaz bem apessoado com um uniforme do serviço de água e esgoto bateu à sua porta. Disse que precisariam arrumar o encanamento da rua e que a taxa era de 800 dinheiros. Os moradores que não pagassem ficariam sem água. Então o velho entrou, pegou o dinheiro e pagou.
A vida não é só sexo, caralho!
Apareceu o dono das terras. Avisaram que só sairiam mortos.
ExecuçãoTinha as palavras finais na ponta da língua.
Só não estava certo de conseguir pô-las pra fora na hora certa, por conta do nó na garganta.
No fim deu tudo errado, faleceu.
SeparaçãoJuntou vestígios pela casa. Colecionou momentos só dos dois. Fez um memorial. Um blog. Um santuário. Pra não esquecer jamais, colocou tudo fora.
FimE ponto.
Encontraram-na caída na tijoleira.
Estendida na cerâmica baça pelo uso, escolha feita quando eram jovens e amantes. Agora, ninguém que a visse, a mão esquerda no bordo da banheira e a direita enclavinhada na toalha cor-de-rosa com riscas em tom mais escuro.
Terá ido urinar e tropeçou no tapete. Ou terá ido ver-se no espelho. Talvez tenha ido buscar água para regar a begónia, ou em demanda de alívio de uma dor conhecida feita mais aguda. Terá querido dizer socorro. Terá querido alguém que a acudisse. Ou nem percebeu que fosse senão um acidente igual a tantos outros.
Mas ficaram-lhe os lábios apertados, indício de que terá sentido dor ou medo. E ficou-lhe a mão direita a torcer as riscas da toalha, numa tensão de tendões e nervos.
Ela que dizia: eu não creio, terá orado: Senhor, nas tuas mãos me entrego. E, só então, os olhos se lhe enevoaram e sentiu quebrantar-se o corpo.
Terá, num arrependimento por se ter desistido, apertado o turco rosa como se ainda pudesse inverter o rumo.
Não sabemos como terá sido.
E nem podemos dizer que não ouviu o veredicto de quem lhe calcou, sob dois dedos, aquela artéria no pescoço.
Descubro-te no caderno da tinta a escorrer a convexidade da palma da mão.
Devolvo-te a imagem. Antes fosse de madeira a palavra, numa mesa de chá, a vomitar cadências de limos. Disse-te que não, não era o contorno que compunha a obra.
Era uma trémula encosta ali na elevação do inútil. É nela que se sustenta a vontade e se quebra a ponte entre a pele e a infância.
Desfolho o caderno e creio-te lá, envolta no lixo estático da morte, em castidades desfeitas na matemática do painel do teu corpo.
O fim é a construção geométrica do orgasmo. Suporte de pele nas tardes abstractas a absolver o sangue menstrual do superior sonho.
Qualquer sopro de fome distingue a muralha do desejo da profecia do tempo. Por isso te mato. Findo-te nesta folha abandonada ao silêncio.
A pilha do relógio acabou. Deponho-te espacialmente de caneta em punho no murmúrio do traço. Sem esforço, evoco-te o fim do pasmo. Exausto-te. Orgasmo-te.
Uma pequena garotinha de olhinhos vivazes e saborosos.
Um velho de rugas, pantufas e veludo, remédio para os ossos.
Num só ambiente: cheirando à chocolate, à madeira velha e poltrona.
Um arsenal de lições aprendidas com a mais nova e broncas cobertas por sorrisos vindos do mais velho, de sensibilidade pueril e de carinhos ao colo.
E como se davam aqueles dois!
Disparidades separadas por idades contrastantes, mas que seladas numa única alma se faziam brincadeiras de amigo.
Num dia obsoleto, aquela poltrona tão gigante (aos olhos da garotinha tão pequena), palco de tantas conversas e explicações da vida afora, de casos e acasos, de experiência de vida... Virou cenário pra uma despedida ainda, feliz.
– ...E amanhã não esqueça de escovar os dentes depois do almoço.
– Tá bom, vovô. Mas não vai embora sem me contar de novo do dia em que a mamãe nasceu.
– Não hoje, minha pequena. Não hoje.
Caminhava tentando pisar todas as pedras da calçada. Quando se cruza comigo uma voz e diz: “O fim da crise só acontece com uma grande guerra ou uma ditadura!”. Apesar do chapéu de chuva ainda lhe vi o rosto, desafinado. E não percebi porque disse aquilo. A chuva caía igual para os dois, as pedras da calçada eram as mesmas, ambos segurávamos um chapéu de chuva, ainda que de Invernos diferentes. Seria pelos diferentes inícios da rua?
A meta de uma vida na sua frente.
3000 Km, sentido Norte-Sul. Agora via a terra já no radar.
Tanto tempo, sempre a lutar por isto. Deus, o que a mulher dele tinha aturado!
Agora que pensava nela, tantas privações, tantas preocupações, tantos meses de ausência que ela suportara pacientemente.
Quase 3000 Km e lá fora uma ilha minúscula, de um castanho magnífico. E de um amarelo sublime, nos ecrãs. Não poderia haver cores mais belas em todo o mundo.
E os acidentes... telefonemas para ela feitos em camas de hospitais, a pedir-lhe que largasse tudo. E ela largava.
Os olhos dela tão cansados, e mesmo assim a dizer "oxalá o teu sonho se concretize".
Em frente já via pessoas microscópicas. Milhares, a aguardarem-no em festa.
2 Km de 3000 e no rádio uma voz emocionada pelas lágrimas, “parabéns, querido”.
Ah, a sensação última e intensa de se saber que se está a cumprir o seu destino!
Ao dar meia volta, sentido Sul-Norte, faltavam 2998 Km para percorrer.
“até ao fim”, respondeu para o rádio.
Texto retirado a pedido do autor.
A agonia durava já alguns meses. Nem o avô morria nem aquela gente tinha descanso. “A morte chega sempre cedo”, pois sim, talvez a dos outros avós. O velho gemia, aiava, molhava os lençóis e comia. Comia muito o raio do velho. Aquilo nem era um moribundo, era uma bicha-solitária com mau feitio.
Ninguém parava naquela casa e cruzavam-se pelos corredores com olhares de desalento. A família transformara-se numa colónia de formigas, num contínuo vaivém de almofadas e água fresca, penicos e cobertores, sopa, tanta sopa e os iogurtes e o raio que o partisse. Mais os comprimidos a horas, sempre a horas, e seria tão fácil... um azul por um vermelho, dois ou três na sopa e o resto no chá... um soninho descansado para eles e o avô que dormisse em cima ou em baixo que frio não haveria de ter.
Numa noite derreada todos sucumbiram pelos sofás. Todos menos o Gustavinho que foi levar a ceia ao patriarca. Demorava-se o garoto e alguém lá foi ver daquilo. E viu. Estava o Gustavinho roxo de corpo já vazio e o velho ainda a apertar-lhe o pescoço. Espanto, horror e aquela voz sumidiça: “Este miúdo era de uma insolência”.
Como se fosse Sábado ou uma maravilha semelhante, fizemos as malas. Guardámos o que sobrava da praça deserta e fechámos as janelas. Havia um silêncio redondo, de verão, pontuado apenas pelo vento. Até os insectos pareciam abafar a existência no calor.
Não fosse a pressa e poderíamos ter-nos suspendido, a dormir por dentro da tarde, sobre o tarde que se faria. Talvez o amor uma última vez, mais uma vez. Mas tínhamos de ir, tinha de ser, tínhamos de ser. E fomos.
Dizem que foi um tiro, mas não é verdade: foi um golpe de luz que nos moldou a pele ao nada, uma espécie de pensamento muito forte antes mesmo do fim.
O olhar cruzou-se numa rotunda e cada um seguiu a sua estrada, o seu caminho.
Há muitas rotundas por aí, mas a hipótese de um reencontro é de 1 para 1000.
Já viste o que perdeste?
Deixa ver se me explico bem para ti:
Perdes tempo, vives na mentira, na ilusão, és algo que não existe, só para ti e para aqueles que pensas que enganas.
Manténs a aparente calma, mas dentro de ti há uma revolução eminente, prestes a explodir.
Manténs a “Linha” mas depois atacas o saco do pão.
Há algo em ti nesse teu fugaz sorriso que pede ajuda, que quer paz e verdade.
Uma noite, ao espelho, viste o meu sorriso a chamar-te, mas resolveste ir dormir...
Sou o teu medo,
sou a tua paixão,
sou o teu mal,
sou a tua voz interior que te massacra com a verdade que não queres ouvir, nem ver.
Um dia quando chegares ao fim da meta vais olhar para trás na tua vida e espero que já não seja tarde demais para ti, ou que já não estejas cega, porque o maior cego é aquele que não quer ver.
somos tão felizes juntos. recordo, como se fosse hoje, quando aqui chegaste
(o começo de o fim).
suicidaste-te, apenas, porque eu morri. és tão romântico, amor.
A mini-ficção policial é para ansiosos.
Um grande dilema da vida é, além de aprender que tudo acaba, que o começo em certas coisas não começa pelo início.
O suicida com o fim de sua vida, perde ou ganha à morte?
O Velho corre de um lado para o outro, sem saber para que lado se virar, como se fosse um ratinho branco de laboratório a querer fugir da experiência que lhe está a ser impingida pelo cientista. As bombas caem dos aviões. As paredes da casa desmoronam-se. O fumo espalha-se pelo ar. O Velho engole poeira, tenta proteger as vias respiratórias com a camisola, olha para a casa que vai abaixo. O tijolo que se parte arrasta para o fundo do mar toda uma história. O passado que desaparece, as memórias que se começam a perder, as fotografias que ficam cada vez mais despovoadas de paisagens. As paredes são agora montes de entulho. Deixou de haver alguma coisa para lembrar. Ajoelhado, sentindo pena de si próprio, o Velho cobre a cara com as mãos, pensa em todos os seus sonhos, em todos os projectos da juventude, e grita: «O fim é agora.» A bomba ainda não lhe caiu em cima mas o Velho já se encontra de braços abertos à espera do explosivo que lhe trará paz.
À cama, o corpo reduzido, de ossos furando a pele, o rosto enrugado, o nariz crescido, os olhos sem brilho, a cabeleira cheia, alva e a voz também irreconhecível, sussurrada:
– É você, Flávio?
Como sempre, em silêncio, ele avizinha-se do leito.
Disforme pela doença, o rosto cadavérico vira-se, procurando-o. O braço magro ergue-se e a mão trêmula busca, busca.
Ele entende e, como se temesse magoar essa mão aperta-a devagar e, sendo humano, sem mais se conter... permite que as lágrimas lavem-lhe as faces frias.
Próxima a velha – testemunha silenciosa da cena – apressada abandona o quarto e no corredor, joga-se nos braços do outro filho, que lhe afaga os cabelos finos, branquinhos.
– Deus quis assim, mamãe... Temos de ser fortes.
No quarto, a mão sem calor liberta a outra mão e, mais do que nunca, o silêncio interpõe-se entre pai e filho.
O último silêncio.
Lentamente, saciado como um gato que ronrona ao sol, passou a página. Os personagens tinham-se encontrado e desencontrado para agora se irem reencontrar, num desenlace lógico e esperado que, não tendo o desencanto do previsível, tinha ainda assim a delicada sedução das coisas que tomam o rumo correcto.
Percorreu com os olhos as frases que iniciavam aquela última página. Reconheceu o lugar sugerido, um aroma a jasmins, um muro de tijolo vermelho, um cipreste ao longe... O herói da breve narrativa percorreu a planície, perdido em reflexões já conhecidas do leitor, que se permitiu um sorriso de omnisciente cumplicidade com aquela pessoa de papel e palavras.
O olhar continua, com lenta volúpia, a percorrer as linhas escritas, muda de linha, lê da esquerda para a direita, e muda. Adivinha-se uma figura feminina naquela sombra ao fundo. Da esquerda para a direita, e muda. O herói, quase inconscientemente, apressa o passo. Da esquerda para a direita, e muda. A figura faz um movimento, uma rotação de ombros apenas, e o herói hesita. Da esquerda para a direita, e muda. Não parece a pessoa esperada, mas tem de ser! Da esquerda para a direita, e muda... "Continua no próximo número."
Ele sentou-se sozinho. Abriu o livro sobre as pernas animado pela possibilidade real de chegar um universo. Ligou o rádio e escolheu um daqueles programas de música ambiente onde não há palavras palavrosas. O livro desmaiou as suas páginas na solidão.
Pára!
A solidão não pára.
«Para quê?»
Passou as páginas, uma a uma, à procura de uma frase cúmplice, uma daquelas que se pressente ter sido escrita tendo-nos unicamente a nós como destino; como agulha hipodérmica a atingir um único paciente. Às vezes encontramos uma frase íntima, que poderia ser do nosso punho, se a tivéssemos escrito, luminosa e, ao mesmo tempo, ultrajante – pois prova que somos vigiados por alguém que escreve aquilo que não escrevemos.
Pára!
A solidão não pára.
«Porquê?»
De um momento para o outro, o livro já não era um universo; apenas um plano inspeccionado. Não era uma dádiva; apenas um produto arrogante. Ele tinha a impressão acre de já ter encontrado aquelas palavras, aquelas frases, noutros livros. Já lera tanto, já escrevera tanto, que ler passara a ser um exercício de insistência. Como o sangue insiste nas mesmas artérias.
Mas o sangue, como a leitura, não vence a desilusão.
Na linha do trem uma madeira rosada
poderia ser protagonista do fim.
O maquinista nem desconfiava.
O mendigo atravessou, e depositando seu saco de lixo
voltou e apanhou a madeira rosada, pensando apenas em
fazer com ela um apoio para se sentar.
Recolhida a madeira, alguns minutos depois,
o trem passou tranquilamente.
– Deve haver alguma teoria que exprima o que vou tentar fundamentar – disse-me com ar de quem sabe exactamente o que vai dizer – quando as pessoas dizem que alguma coisa chegou ao fim, seja física ou psicológica, não posso acreditar nisso. Falando primeiramente nas coisas físicas, uma estrada acaba? Os becos sem saída podem realmente não tê-la, mas se voltarmos as costas há sempre um caminho à nossa frente, não é verdade? O mesmo acontece com os pássaros, as pessoas, os animais. As acções têm um início mas será que têm mesmo um fim? Se pensarmos que as acções têm consequências então as consequências são o seguimento de alguma coisa que irá começar outra. Até morrermos, não sabemos para onde vamos. Não se pode efectivamente dizer que é o fim.
– Mas avô, as pessoas terminam os pensamentos! Não estão sempre a pensar no mesmo, não é assim?
– Pequena, é verdade que não estamos sempre a pensar o mesmo. Ao racionalizar, tudo tem influência em nós mais tarde ou mais cedo. Até os pensamentos vagos acabam por voltar um dia. Nós é que já não nos lembramos deles. A consciência acompanha-nos sempre. Entendes o que te quero dizer?
Ernesto tinha uma rara fobia que o impedia de concluir qualquer coisa. Nunca acabou o secundário, apenas faltando a disciplina de técnicas de tradução de francês. Era casado com Anabela que lhe era infiel com todos os homens (e algumas mulheres) da vizinhança, mas não era capaz de pedir o divórcio. Trabalhava numa linha de montagem numa fábrica onde nunca tinha qualquer intervenção na finalização do produto. O seu principal objectivo era viver em círculo e tentar, a todo o custo, evitar qualquer fim.
E conseguiu manter este propósito até ao dia em que, ao conduzir numa rotunda, teve um acidente de carro e ficou paraplégico. Essa altura marcou o fim do seu jogging diário, que mantinha havia anos apesar de preferir jogar futebol de salão.
Após a Grande Festa do Esperma Indeciso, a última party de Verão no Beach Club de Algures, e conduzidas pelo seu forte instinto de supervivência, as Dondocas sentiram que era tempo de hibernar. Então recolheram às suas tocas, onde sobrevivem à época das chuvas, enroladas em revistas cor-de-rosas com as suas glamorosas fotografias na capa.
No sentí miedo cuando ellos vinieron y se llevaron a todos mis conocidos.
No sentí miedo cuando los sustituyeron por unos dobles perfectos, cuerpos sin alma que no experimentaban las sensaciones más básicas.
No sentí miedo cuando descubrí con pesar que no se relacionaban conmigo, que nunca se acercaban a mí; que nunca me hablaban.
No, en aquel momento no sentí miedo.
El pánico se desató cuando ellos vinieron a por mí y, tras observarme con atención durante una eternidad, decidieron que no era necesario sustituirme.
Não senti medo quando eles vieram e se levaram a todos meus conhecidos.
Não senti medo quando os substituíram por uns dobros perfeitos, corpos sem alma que não experimentavam as sensações mais básicas.
Não senti medo quando descobri com pesar que não se relacionavam comigo, que nunca se acercavam a mim; que nunca me falavam.
Não, naquele momento não senti medo.
O pânico desatou-se quando eles vieram a por mim e, depois de me observar com atenção durante uma eternidade, decidiram que não era necessário me substituir.
Sentado à mesa, ele serviu-se com uma xícara de chá. Abriu o jornal, como se nele contivesse o resultado de um exame crucial. Leu algo que o tornara uma súbita estátua humana. Movimento, apenas em uma lágrima fria que escorria do olho esquerdo. Não pensara em nada além do que havia perdido. Nada mais importava. Dez passos o deixaram à beira da janela, décimo andar. Ao saltar para o fim, o homem se viu entre a vida e a morte. Porém a grande sorte foi ter caído sobre a terra fofa, mar de rosas. Óbito para depois, e a ele, uma bengala assistente para o resto da vida.
Munido da bíblia, ele viu o inimigo se aproximar feito um cão raivoso. Clamou proteção contra o mal e tinha certeza de que o fim era pra já. Choroso, mirou esposa e filha que o ladeavam. Pediu perdão a elas pelo passado criminoso, ajoelhou-se, não teve vergonha de implorar por misericórdia. Armado de pistola, o suposto inimigo sorriu para o velho conhecido. Pedia a Deus que fizesse o mesmo em sua vida. Ao passado o ódio de alguém que perdera um dos olhos num golpe dado de um bandido convertido ao cristianismo.
Sobre o fazer bonito; a história enlameia os dedos e a gente brinca de grudar e desgrudar. Numa tarde, olhos vermelhos; a vida sofrida do menino do livro. Escadaria da casa, tão grande no meu sentimento, jornais empilhados, recortes colados no armário, não era bagunça; era sentido de vida, expressão de luta. Ardia. Ardiam meus olhos ao ler da infância espancada e das vozes caladas, quanto ainda subsistia no armário!
Desci, bolo com refrigerante, queria abraçar e beijar a vó, e dizer a ela do meu amor, dos dias de sofrimento qu’eu queria tirar dela, todos os dias de sofrimento eu queria expurgá-los do corpo e da memória da vó, a vó tão boa que me dava sempre meio comprimido de vitamina C, porque era bom prevenir. A vó cuidou do meu canarinho, e eu não disse pra ela, mas nem fiquei muito triste quando ele morreu, mas ela ficou, então eu senti mais a minha tristeza.
O passado choro pela infância sofrida do menino se entrelaça com um sussurro de acalanto e boa-noite. E no enlace há interstícios, que se unem em minha memória e em meu corpo, deslumbre de recordação que traz sabores na língua toda.
Começa assim o fim. Sem ninguém prever nem suspeitar. Sem ninguém ter apostado uma moeda. Razão anónima e derradeira. Olhar de roupa branca, na abertura matinal do mercado, cego como os peixes.
Vou levantar pedras.
Uma despedida em silêncio, ao dobrar o pontão, ao caminhar, minúsculo, no areal escuro dos sonhos malditos, ao cair súbito da noite a rapar o tacho dos vadios.
Não me esquecerei de rezar por todos os que escrevem por engano e por vaidade. E insistem em vez de andarem atrás de saias vaporosas. Microscópios sem alma, tão desgarrados quanto este mundo sem palavras honestas e mãos afáveis. Não seria melhor escovarem cavalos?
O fim mais uma vez. Louca nostalgia de permanecer indefinidamente junto do ruído da água das fontes. Espectro transparente sem desejos velozes nem permanências exaustivas no visível. Vontade de mijar.
Despeço-me de todos os que leram estes meros reflexos sem importância da escrita de um ser desprezível, mortal. A minguante cavaleiros de aquém!
Vou levantar pedras.
De corpo espartano, ele não dava descanso à sua amante. No entanto, era sempre cuidadoso pois via-a como uma boneca de porcelana. Um dia, no seu ímpeto, rasgou-a ao meio e viu que, afinal, nunca passara de uma boneca de trapos...
O Altruísta, ao saber que morreria no dia seguinte, não avisou nenhum dos seus entes queridos. Fez simplesmente as malas e desapareceu para poupá-los ao sofrimento da certeza da sua morte, deixando-os apenas com o sofrimento da incerteza do seu paradeiro. Foi para norte e refugiou-se no ponto mais alto de uma montanha, à espera que a vida o abandonasse.
O Egoísta, ao saber que morreria no dia seguinte, fez questão de avisar todos os seus familiares e amigos naquele mesmo instante, dando-lhes o sofrimento de um dia inteiro de certeza da sua despedida. Marcou o seu funeral para as 16h do dia seguinte. Às 15h59, quando toda a gente estava reunida no cemitério, matou-os a todos e depois suicidou-se.
A última coisa que o Altruísta viu, antes de morrer sozinho no cume da montanha, foi o Egoísta atravessando um rio de sangue a bordo da barca de Caronte, acompanhado de todos os seus amigos.
1. Muitos amores começam pelo fim.
O meu começou pelo e-mail...
2. Aquele teria sido o sono mais longo de sua vida... não tivesse acordado dentro de um caixão a sete palmos da terra!
3. Todas as noites, antes de dormir, dava corda ao despertador.
Uma noite esqueceu-se do hábito.
Nunca mais acordou.
4. Só vivia para acumular dinheiro. De fato, um grande porco capitalista!
Seu fim, porém, foi triste.
Por conta de suas moedas, reduziram-no a cacos.
5. Atingira o fundo do poço. Desde então recusa as mãos estendidas em seu socorro.
O medo de uma nova queda lhe suplanta a vontade de se levantar.
6. Do medo do fogo, nasceu sua atração pela água; do desprezo pela vida, o interesse pela morte. Atração e interesse que explicam perfeitamente seu afogamento suicida.
7. O lugar era ermo; o buraco, fundo e escorregadio.
Sobrevivera à queda, mas era certo que ali morreria.
“Ao menos, não será de fome”, consolou-se, depois de constatar a companhia dos ratos.