estranha forma de vida

começava a ser recorrente. cíclico. como uma curva na estrada que bem podia ser a direito. um risco na faixa preferida. sentia o corpo paralisá-la de fora para dentro. ou o contrário. os músculos da cabeça a comprimir-se sobre o crânio até à asfixia. não suportava mexer em máquinas, o seu burburinho camuflado de silêncio ácido e corrosivo. deixou o computador ligado durante várias noites e fechou a porta. não abriu o frigorífico durante vários dias. pensava, deitada na cama, como seria ser leve outra vez, deixar a voz desprender-se dos lábios sem esforço. no andar de baixo ouvia-se fado e dois pisos acima alguém caiu com um estrondo.

Sónia Oliveira
Sílvia AlvesValter Ego