Em comum tinham apenas a espera do ônibus. Nunca a vira antes, até aquela noite, naquela hora, acendendo o fósforo tão distraidamente. Sem encenação. Daquele jeito que devia ser só seu. A boca carnuda marcou duas luas marrons no apertado do filtro. Ficou tri a fim. Aproximou-se então e arriscou tudo: dá um cigarro?
(En)fadoJoão era um jovem impetuoso, ousado. Não acreditava em destino. Antes buscava o não-destino, um imprevisível viver em ziguezague intermitente. A exorável permissividade de cada paixão, de cada impulso cedido foi experimentada, como a provocar as certezas tediosas de um futuro tranqüilo e seguro. Hoje, sentado à varanda do sítio, um neto em cada perna, relembra (quieto) as muitas aventuras que não lhes pode contar.
PerspectivaPedro Caiado trabalhava no cemitério. Construiu sepulturas simples, jazigos familiares, finíssimos mausoléus. Agora, morto, atendiam seu pedido: “cova funda e caçamba de terra por cima, que o ponto de fuga de todo universo é o mesmo - o pó”.
AlzheimerFaleceu a esposa do Seu Carlos, o velhinho da fruteira. É... quarenta e tantos anos juntos. O pobre está desolado. Diz que nos últimos meses era o mesmo que ter um vegetal em casa.