O umbigo

Estávamos a ensinar o M a fazer sexo. Ele esbracejava entre a roupa da C, sempre disposta a estes prazeres adolescentes do corpo, procurando o sítio certo. Era mais que certo que não sabia onde o procurar, era caloiro na matéria. Nós, cá de cima da estrada de terra batida, deitados sobre o barranco a céu aberto que fazia navegar os esgotos para o rio, orientávamos o acto. A certa altura, ele, desapossado de qualquer vergonha da ignorância, disse-nos que já lá estava, num pequeno mas atraente orifício da barriga. O que é que você faria perante tamanha certeza ontológica? Nós rimo-nos, como moços pequenos que éramos. Mas eu lembro-me de ter gritado para o fundo do barranco: "Não é aí pá, é mais abaixo!". Ninguém é obrigado a saber o verdadeiro lugar do sexo.

Helder F. Raimundo
Gustavo do CarmoInês Sousa Santos