Minguante: Paulo, para quebrar o gelo, deixa-me perguntar se és sempre tão sério como mostram as fotografias de ti que disponibilizas?
Paulo Rodrigues Ferreira: Sim. Desde muito pequeno que tenha esta cara de poucos amigos. Nasci assim. Mas acredita que sou mais afável do que pareço.
M: Como deves ter já percebido, está será uma entrevista séria, daquelas em que se leva tudo muito pouco a sério. Assim, a segunda pergunta, será porquê a escolha de um título como A Prisão do Ético para o teu livro agora publicado, que é o título de um dos textos do livro, quando existiam tantas outras possibilidades muito melhores? Há uma vontade determinada de enviar uma mensagem neste livro, como parece sugerir a tua afirmação no lançamento do livro, que temos de ter cuidado com aquilo que somos enquanto homens?
PRF: 
O livro foi escrito há quase três anos. Tinha vinte e um anos. Por motivos que me são alheios, só agora foi publicado. O título do livro é o título de um dos textos de que gosto menos. Se pudesse voltar atrás, não teria chamado o meu primeiro livro de
A Prisão do Ético. Na altura, sem distanciamento em relação ao que tinha acabado de escrever, achei que simbolizaria o que pretendia na primeira parte do livro: inventar textos que, de certa forma, subvertessem alguns pensamentos ditos convencionais. Já a expressão «temos de ter cuidado com aquilo que somos enquanto homens» foi um comentário a propósito de uma frase de Paul Valéry: «Temos de entrar em nós próprios armados até aos dentes.» Somos animais criadores de destruição, de violência. Não viemos ao mundo para rezar mas para sobreviver. Não sei se essa ideia está sempre presente no livro, mas está certamente naquilo que escrevo actualmente.
M: Como começaste a escrever e em que circunstâncias se desenvolveu a tua escrita? Qual a importância da escrita no blog e em revistas electrónicas?
PRF: Quem lê muito aos dezoito, deve ficar com vontade de escrever. Fica-se com uma voz própria, com vontade de dizer algo. Quando me chegou a criatividade, cruzei-me com os blogs e com revistas online como esta, o que me permitiu não apenas ter uma possibilidade de arquivar os meus textos, como ter a ilusão de ser lido. Ter um, dois, dez leitores, receber comentários, elogios, sabe bem para quem está a começar. Actualmente, não tenho tão boa ideia dos blogs. Acho que os blogs são importantes para promover um escritor, um cronista, um crítico, mas só até certo ponto. Por exemplo, aquando da guerra do Iraque, toda a gente percebia de estratégia militar, de filosofia política, de história. E a verdade é que pouca gente sabia alguma coisa para além de banalidades. Ou seja, o meu desconforto quando olho para os blogs vem de uma certa massificação. Não «somos todos iguais». Não somos. Para fazer comentário político, é preciso ter uma certa formação intelectual que inclui a universidade. O mesmo acontece com quem faz literatura. Claro que agora poderias dizer-me que eu próprio me tenho promovido através dos blogs e de revistas online. E eu só poderia concordar. Mas também diria que o meu percurso vai muito para além dos blogs. Inclui a universidade, e ler e escrever muito, muito, quase doentiamente.
M: Este é o primeiro livro que escreveste ou o primeiro que publicaste? Existem outros neste momento? É necessário um livro para que nasça um autor, bastará um blogue ou bastará escrever?
PRF: Este é o primeiro livro que escrevi e que publiquei. Existem mais uns quatro livros, mas nenhum deles foi ainda enviado para uma editora. Não sei se, neste momento, vale a pena enviar um manuscrito para uma editora que, provavelmente, não me conhece e não me dará qualquer tipo de resposta.
Um livro dá mais credibilidade a um autor. É uma espécie de baptismo. A partir do momento em que apareces em papel, existes. Eu já existia enquanto autor: não tinha publicado nada e já escrevia a ritmo diário. Um blog não basta para ser escritor porque não passa de uma simples ferramenta, um instrumento, um caderno no qual se escreve para depois fazer alguma coisa séria como um livro. Entendo que os blogs são um moleskine um pouco melhor do que os normais: guardas os textos na gaveta e, ao mesmo tempo, és lido. Mas um blog não é uma profissão.
M: Existem algumas razões para a escolha de uma escrita breve?
PRF: Em jeito de brincadeira, diria que a escrita curta é boa para quem escreve e lê várias coisas diferentes em simultâneo. Esta forma de escrita permite dar uma densidade muito grande a um texto. Mas há qualquer coisa que me desagrada em quem escreve: a desvalorização do género. Muitas vezes, escreve-se um texto curto para contar uma espécie de piada, qualquer coisa que faça rir. Deve-se aproveitar o texto curto para dar densidade, para ferir, para dar impacto. Se temos duzentas palavras para um texto, por que não aproveitar para dar um grito forte e violento, em vez de dar uma pequena risada?
M: O presente livro contém dois livros, que obedecem a diferentes lógicas e que bem poderiam corresponder a duas edições em papel. Queres falar sobre isso? E já agora, não achas que, ainda que se escreva num registo breve, existe muitas vezes a vontade de acumular textos em cima de textos, como se se tivesse vergonha desse registo?
PRF: Escrever num registo breve é tão válido como escrever num registo longo. Não há um cânone para a escrita. Além disso, desta forma de escrever pode surgir muita genialidade. Simplesmente, se eu enviar um manuscrito com vinte micro-narrativas, nenhuma editora mo publica.
M: Já agora, uma pergunta que se faz sempre; quais as tuas influências?
PRF: Evitando estar aqui a debitar nomes, dou-te apenas três a quatro nomes que me influenciaram mesmo muito: Robert Walser, Séneca, Beckett, Homero, Bioy Casares, António Franco Alexandre, Gonçalo M. Tavares. Ultimamente, tenho andado fascinado com os livros de Philip Roth.
M: E outra, que se faz às vezes. Estás contente com a tua primeira vez?
PRF: Poder-te-ia dizer que sim, mas há sempre um sentimento de insatisfação. O que me dará real contentamento é publicar tudo o que tenho escrito e tudo aquilo que ainda vou escrever.
M: Achas que é importante dar nome ao que se faz? Tenhas respondido sim ou não, em que género caberia o teu livro A prisão do Ético: ensaio, poesia, microficção ou outro?
PRF: Acho que não me encaixo na micronarrativa. Sou demasiado eclético para ser apenas cento e quarenta caracteres de texto, uma página ou o que quer que seja. Muitas vezes, digo micronarrativa para usar um código que seja facilmente entendido por quem me ouve ou lê.
A Prisão do Ético, por exemplo, se tem uma segunda parte mais directa, com textos mais curtos, mais facilmente identificáveis com a «micronarrativa», a primeira não tem nada de micronarrativa. Não conto histórias na primeira parte do livro. São ideias que se sobrepõem muitas vezes em contradição umas com as outras. É quase um diálogo condensado em texto.
M: Usando a mesma citação de Beckett que usas no teu blog, achas que já estás pronto para lições de natação, agora que aprendeste a andar?
PRF: Neste momento, posso dizer que nado com bastante desenvoltura.
M: E a terminar, que pergunta costumas fazer com mais frequência a ti mesmo?
PRF: Vale mesmo a pena?