Fernando Sorrentino abril 2007
Fernando Sorrentino, argentino com obra publicada desde 1969, viu recentemente traduzido para português um volume antológico que levou o título de um dos seus contos mais célebres: Existe Um Homem Que Tem O Costume De Me Dar Com Um Guarda-Chuva Na Cabeça. Colocámos-lhe algumas questões que talvez ajudem a conhecer um pouco melhor o autor de uma das mais interessantes obras da contemporaneidade no domínio do conto.
Minguante: Queremos começar esta pequena entrevista de uma forma clássica. Lembra-se da primeira história que escreveu? Se sim, qual? E como recorda essa experiência?

Fernando Sorrentino: No, no podría recordarla, porque, ya desde la adolescencia, intenté escribir muchísimas historias. Y, naturalmente, por mi poca edad, por mi escasa cultura y por mi falta de experiencia, esas historias terminaban yendo al cesto de los papeles inservibles. Casi todos los cuentos que integran mi primer libro, La regresión zoológica (que es de 1969), son cuentos bastante malos, fruto de la inmadurez literaria que me aquejaba a mí por aquella época muy juvenil.
Sí, en cambio, recuerdo perfectamente cuál fue el primer texto mío que se publicó: fue el cuento “Cosas de vieja”, que ganó un premio menor en un concurso literario y fue publicado en Nuestros Hijos, una revista que se publicaba en Buenos Aires hará unos cuarenta años. Bueno, luego incluí en Imperios y servidumbres ese cuento, y ahora mismo sigue pareciéndome bastante decoroso.

Não, não poderia lembrar-me, pois tentei escrever muitíssimas histórias já desde a adolescência.. E, naturalmente, por ser muito novo, pela minha escassa cultura e falta de experiência, essas histórias terminaram no cesto do lixo. Quase todos os contos que integram o meu primeiro livro, La regresión zoológica (que é de 1969), são bastante maus, fruto da imaturidade literária que me afectava por aquela época muito juvenil. Em contrapartida, recordo-me perfeitamente do meu primeiro texto a ser publicado: foi o conto “Cosas de vieja”, que ganhou um prémio menor num concurso literário e foi editado na Nuestros Hijos, uma revista publicada em Buenos Aires há uns quarenta anos. Bem, esse conto foi incluído em Imperios y servidumbres, e ainda hoje me parece bastante honesto.


M: O conto tem sido uma das suas formas privilegiadas de expressão. Existe alguma razão para isso?

FS: Existe la razón de un “mandato interno”. Mi “cerebro literario” tiende a idear historias que ya tienen una forma más o menos breve, una forma que corresponde al cuento y que, en general, no alcanzaría nunca para extenderse hasta ser una novela.

Existe a razão de um “mandato interno”. O meu “cérebro literário” tende a imaginar histórias que possuem uma forma mais ou menos breve, uma forma que corresponde ao conto e que, em geral, dificilmente poderia estender-se até ser um romance.


M: Prefere que o leiam como um escritor argentino ou como um escritor sul-americano?

FS: Nunca se me ocurrió pensar en semejante tema. Pero hay una circunstancia inevitable e ineludible: no tengo manera de no ser argentino y de no ser sudamericano, porque, irreversiblemente, soy ambas cosas. Y, sin duda, la Argentina me hizo así, con ciertas “características argentinas” que nosotros, dentro del nuestro territorio, no advertimos, pero que suelen señalársenos cuando estamos en otro país. Aunque mi lenguaje es muy argentino (¿cómo podría no ser así?), procuro siempre evitar los rasgos excesivamente localistas y trato de escribir en un español, digamos, “general”, para que se entienda sin incomodidad en todo el orbe hispánico.

Nunca me ocorreu pensar em semelhante assunto. Porém, há uma circunstância inevitável e iniludível: não tenho maneira de não ser argentino e de não ser sul-americano, pois, irreversivelmente, sou ambas as coisas. E, sem dúvida, a Argentina fez-me assim, com certas “características argentinas” que nós, dentro do nosso território, não notamos, mas que são assinaladas quando estamos noutro país. Ainda que a minha linguagem seja muito argentina (como poderia não ser assim?), procuro sempre evitar os rasgos excessivamente localistas e tento escrever num espanhol, digamos, “geral”, para que se entenda sem dificuldade em todo o mundo hispânico.


M: A Argentina é rica em contistas, dos quais o mais conhecido é, sem dúvida, Jorge Luís Borges. Como vê o panorama literário argentino na actualidade?

FS: Debo confesar que, aunque he leído a casi todos los autores argentinos que son mayores que yo, casi no conozco las obras de los que son más jóvenes que yo. Y esto no se debe a desinterés ni a desdén, sino a que, en general, ya no leo tanta literatura como antes y también a que prefiero releer (con una nueva mirada) autores que leí en mi juventud.
Después de Borges, el narrador argentino que más admiro, el que me ha hecho pasar horas y horas de inmenso placer con sus historias, es Marco Denevi.
En cambio, no tengo manera de elogiar a dos escritores que suelen ser endiosados por la temerosa “crítica oficial” argentina no me gusta Horacio Quiroga y no me gusta Roberto Arlt.

Devo confessar que, se bem que tenha lido quase todos os autores argentinos mais velhos que eu, praticamente não conheço as obras dos mais jovens. Isto não se deve a desinteresse nem desdém, mas apenas ao facto de, em geral, já não ler tanta literatura como antes e também porque prefiro reler (com uma nova perspectiva) autores que li na minha juventude.
Depois de Borges, o narrador argentino que mais admiro, aquele que me fez passar horas e horas de imenso prazer com as suas histórias, é Marco Denevi.
Por outro lado, não tenho maneira de elogiar dois autores que são endeusados pela temerosa “crítica oficial” argentina mas que não me agradam: Horacio Quiroga e Roberto Arlt.



M: A minificção é um género literário especialmente explorado na América do Sul. Qual o lugar da sua obra no contexto da literatura sul-americana?

FS: Yo he escrito algunos cuentecitos bastante breves, pero no “buscándolos”, sino, simplemente, porque su asunto requería la brevedad. En general, no me agrada leer “minicuentos” ni “microcuentos”: su lectura me obliga a un esfuerzo intelectual que luego no es recompensado.

Escrevi alguns contos muito breves, mas nunca “buscando-os”, apenas, simplesmente, porque o assunto que tratavam requeria brevidade. Em geral, não me agrada a leitura de “minicontos” nem de “microcontos”: é uma leitura que me obriga a um esforço intelectual que não é recompensado de imediato.


M: Como é que caracteriza, se tal for possível, a sua obra?

FS: Es muy difícil mirarse a sí mismo. Pero creo que soy bastante distinto de la mayor parte de mis colegas: para bien o para mal, creo que no me parezco a nadie. Después de tantos años de escribir y de publicar, y sin que lo haya buscado deliberadamente, veo que en mis cuentos hay una mezcla de fantasía con verosimilitud, de humor con absurdo…, en fin, no podría explicar por qué, pero sé que tengo una especie de “marca de fábrica” que me distingue fácilmente de los demás.
La literatura de carácter “realista”, “social”, “psicológica”, “política”, etcétera, no me interesa: me aburre terriblemente leer esos vanos intentos de fotografiar o reproducir la realidad. Y no sólo me aburren sino que, además, los veo inconducentes: el “realismo” literario es un género tan convencional como el “fantástico” literario y como todos los demás. Por otra parte, esa literatura se parece demasiado a las meras noticias de los periódicos.
A mí me encanta leer historias donde ocurran episodios extraños, a condición de que las mentiras estén bien narradas: la verosimilitud es esencial. El que no sabe ser verosímil no sabe narrar.
Por razones de trabajo, hace unos meses tuve que releer, casi al mismo tiempo, el David Copperfield de Dickens y La bahía de silencio de Eduardo Mallea. La novela de Dickens es la obra de un maestro; la de Mallea, la obra de un equivocado.

É muito difícil falarmos de nós próprios. Creio que sou diferente da maioria dos meus colegas: para o bem e para o mal, creio que não me pareço com ninguém. Após tantos anos a escrever e a publicar, e sem que o tenha procurado deliberadamente, vejo que nos meus contos existe uma mescla de fantasia com verosimilitude, de humor com absurdo…, enfim, não poderia explicar porquê, mas sei que tenho uma espécie de “marca de fábrica” que me distingue facilmente dos demais.
A literatura de carácter “realista”, “social”, “psicológica”, “política”, etc., não me interessa: aborrece-me terrivelmente ler essas tentativas vãs de fotografar ou reproduzir a realidade. E não apenas me aborrecem como também, além disso, vejo-as como contraproducentes: o “realismo” literário é um género tão convencional como o “fantástico” literário e como todos os demais. Por outro lado, esse tipo de literatura parece-se demasiado às meras notícias dos jornais.
Encanta-me ler histórias onde ocorram episódios estranhos, sob a condição de que as mentiras estejam bem narradas: a verosimilitude é essencial. Aquele que não sabe ser verosímil não sabe narrar.
Por razões de trabalho, há alguns meses tive que reler, quase ao mesmo tempo, o David Copperfield, de Dickens, e La bahía de silencio, de Eduardo Mallea. O romance de Dickens é a obra de um mestre; o de Mallea, a obra de um equivocado.



M: Em muitas das suas histórias encontramos uma relação dúbia entre os protagonistas e o narrador. Muitas vezes o narrador confunde-se com o próprio autor. É o Fernando Sorrentino a personagem principal das suas histórias?

FS: Quiérase o no, toda la literatura es autobiográfica, inclusive en todas las mentiras y en todos los embustes que el narrador inventa. De un modo o de otro, creo que siempre estoy dentro de mis relatos. Talvez no como personaje explícito, pero sí en los pormenores, en la construcción de los razonamientos y en el clima general de la narración.

Queira-se ou não, toda a literatura é autobiográfica, inclusive em todas as mentiras e em todos os embustes que o narrador inventa. De um modo ou de outro, creio que estou sempre dentro dos meus relatos. Talvez não como personagem explícito, mas sim nos pormenores, na construção dos argumentos e no clima geral da narrativa.


M: Qual a importância do humor naquilo que escreve?

FS: Yo nunca digo: “Voy a escribir una historia humorística”. Pero, a medida que voy escribiendo, las situaciones humorísticas vienen solas, vienen “naturalmente”, tal como ocurre a cada instante en la vida de todos nosotros. Pero trato de no exagerar: el humor sólo debe ser un condimento de la historia, no el núcleo.

Eu nunca digo: “Vou escrever uma história humorística”. Mas, à medida que vou escrevendo, as situações humorísticas vêm à luz, surgem “naturalmente”, tal como ocorre a todo o instante na vida de qualquer pessoa. Porém, trato de não exagerar: o humor apenas deve ser um condimento de uma história, nunca o seu núcleo.


M: O absurdo é uma das dimensões dos seus contos. Há alguma relação entre a realidade e o absurdo na sua obra?

FS: Es que vivimos en un mundo absurdo, un mundo casi demencial. Basta leer el diario o encender el televisor, y vemos un desfile de cosas de locos, de situaciones sin lógica alguna, carentes de la menor racionalidad. Y esos disparates no sólo son aceptados con benevolencia sino, además, recompensados.

É que vivemos num mundo absurdo, num mundo quase demencial. Basta ler o jornal ou ligar a televisão, para vermos um desfile de coisas de loucos, de situações sem lógica alguma, carentes da menor racionalidade. E esses disparates são não apenas aceites com benevolência como também, além disso, recompensados.


M: Conseguiria deixar de escrever?

FS: Nunca escribí demasiado y jamás escribí “de oficio”. Sólo me pongo a escribir si se me ocurre alguna idea que tiene la posibilidad de convertirse en una historia más o menos eficaz.
Por eso mismo, no creo en la pose (tragicómica) de ciertos escritores que quieren hacernos creer que, cuando escriben, sufren mucho (porque la literatura es muy dolorosa, dicen), y, cuando dejan de escribir, también sufren mucho (porque no pueden vivir sin la literatura); en fin, meras payasadas, pensadas para impresionar al público ingenuo.

Nunca escrevi demasiado e jamais escrevi “de ofício”. Só me ponho a escrever se me ocorre alguma ideia que tenha a possibilidade de se converter numa história mais ou menos eficaz.
Por isso mesmo, não creio na pose (tragicómica) de certos escritores que pretendem fazer-nos crer que, quando escrevem, sofrem muito (porque a literatura é muito dolorosa, dizem), e, quando deixam de escrever, também sofrem muito (porque não podem viver sem a literatura); enfim, meras palhaçadas, pensadas para impressionar o público ingénuo.
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